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segunda-feira, junho 22, 2020

E O JN JÁ ESTAVA ESGOTADO!...


Hoje, fui, mais uma vez, tomar o meu cimbalino matinal ao Café Bom Dia. Antes de me sentar numa mesa da esplanada que, estranhamente, estava totalmente vazia, passei pelo quiosque para adquirir o habitual JN. E qual não foi o meu espanto ao verificar que o JN já estava esgotado!

Não havia nada a fazer. Tomei o meu café descansadamente, desejando, secretamente, que os meus amigos Serafim e Afonso aparecessem, como era habitual. Já que não havia JN para ler, sempre haveria uma conversa entre Serafim e Afonso para escutar... E como essas conversas são interessantes!...

Mas, definitivamente, hoje não era o meu dia da sorte: Serafim e Afonso tardavam em aparecer. Decidi, então, levantar-me e ir pagar a despesa ao balcão, pois o empregado de mesa parecia ter-se eclipsado. Nesta viagem entre mesas vazias da esplanada, reparei num poema rabiscado num guardanapo de papel que estava abandonado numa delas. Peguei, maquinalmente, no guardanapo, dei-lhe uma olhadela e, como o título do poema era muito sugestivo, dobrei o guardanapo e meti-o no bolso, para uma leitura posterior mais atenta.

Após a despesa paga, saí do Café Bom Dia e rumei ao quiosque do Café Velasquez em busca do JN. Ao passar pela respectiva esplanada deparei, com espanto, que ali estavam, em amena cavaqueira, o Serafim e o Afonso. Dirigi-me a eles, não só para os cumprimentar, mas também para satisfazer a minha curiosidade quanto às razões da mudança de “poiso habitual”.

Afonso não se fez rogado e elucidou-me:

- É verdade, Jomaguy, decidimos mudar de ares... O ar do Bom Dia andava a ficar um bocado poluído... A presença duma certa “geração youtube” que se dá com (e aprova comportamentos de) vigaristas, oportunistas, lambe-botas e quejandos estava a tornar o ar do Bom Dia “irrespirável”. Estamos muito melhor aqui... Pelo menos, por enquanto...

Agradeci o esclarecimento e, após mais algumas palavras de circunstância, despedi-me e entrei no Café Velásquez para me dirigir ao respectivo quiosque. Comprei o JN e saí, passando perto de Serafim e Afonso, que, inevitavelmente, tinham retomado a sua amena cavaqueira. Apenas pude perceber uma frase solta de qualquer contexto, dita por Serafim:

- Pois é como te digo, Afonso, esses meninos não passam do que eu designo por “desperdícios dos espermatozóides paternos”...

No caminho até casa, fui pensando na frase ouvida e no quanto ela tem de verdade em casos que eu conheço de ginjeira. Chegado a casa, calcei as pantufas, sentei-me e embrenhei-me na leitura do JN.
 
Quanto estava quase a terminar a leitura do JN, uma ideia invadiu a minha mente.... O poema... Ainda não tinha lido o poema... Meti a mão ao bolso em busca do guardanapo rabiscado... Nessa altura, a minha mulher chamou-me para ir almoçar... Mais tarde, teria tempo para o poema... O “Bacalhau à Luís de Matos” é que não podia esperar!

P.S.: Portanto, os leitores desta crónica vão ter que esperar uns diazitos antes de lerem o poema... Convém manter os leitores em “suspense”...

quinta-feira, maio 28, 2020

CANTAS BEM, MAS NÃO ME ENCANTAS....


Hoje fui, de novo, tomar o meu cimbalino ao Café Bom Dia. Até porque estava mesmo um bom dia e há que aproveitar em pleno o desconfinamento possível.
Quando lá cheguei, apenas uma mesa da esplanada estava ocupada.... Lendo atentamente o seu JN, lá estava o Afonso. Desta vez sem a companhia do Serafim. Ao passar perto (a mais de 2 metros, seguramente) da sua mesa, cumprimentei-o e trocamos algumas breves palavras de circunstância. Pareceu-me que Afonso queria conversa, mas não comigo. Normalíssimo. Ele gosta mesmo é de falar com o “seu” Serafim.
Sentei-me numa mesa um pouco afastada e pedi o meu cimbalino. No momento em que este foi colocado à minha frente e me preparava para o adoçar, sou “despertado” por um chamamento bem audível.
[...]
- Ó Serafim... Serafim... – bradava Afonso, dirigindo-se ao amigo que ia a atravessar o Jardim da Praça Velásquez (perdão, Francisco Sá Carneiro) – Anda cá tomar um cafezinho, que hoje pago eu!
Serafim olhou na direcção da voz que o chamava, identificou o amigo Afonso e respondeu:
- Não posso. Tenho que ir ali ao Pingo Doce comprar o que a minha mulher me encomendou.
Afonso insistiu:
- Será um café rápido... Anda cá... Até porque temos uma conversinha a pôr em dia.
Serafim não se fez rogado. Procurou a travessia de peões mais próxima para poder atravessar em segurança a faixa de rodagem e, passados breves instantes, estava a sentar-se na mesa ao lado da do amigo.
- Vais ter que ser uma conversa rápida, Afonso. – afirmou Serafim – A minha mulher pediu-me para ir comprar bacalhau e, tu sabes, com aquela inovadora receita de Bacalhau à Luís de Matos que, há dias, apareceu na net, o bacalhau é capaz de ter muita procura... e esgotar!
Afonso anuiu com um sorriso e  disse:
- Ora é precisamente do Luís de Matos que te queria falar. Tu viste aquele post bem simpático que ele colocou na sua página do Facebook a felicitar o Helder Guimarães por ter sido capa do LA Times Calendar com o espectáculo The Present... É bonito de se ver esta demonstração de respeito por...
Serafim não deixou o amigo continuar, interrompendo-o da seguinte maneira:
- Ó Afonso  tu deves estar a gozar com a minha cara!... Só pode!... Tal como o Luís de Matos, ao fazer esse post, deve estar a gozar com a cara do Helder Guimarães e de todos aqueles que sabem a falta de respeito (sim, Afonso, repito: FALTA DE RESPEITO...) que o Luís de Matos teve para com o Helder Guimarães ao COPIAR o conceito do espectáculo “The Present” e lançar o seu super-criativo “Luís de Matos ZOOM”... Respeito teria sido abordar previamente o Helder Guimarães e tentar encontrar um consenso que lhe permitisse fazer tal espectáculo dando o correspondente crédito ao Helder Guimarães.... Portanto, Afonso, não me venhas falar de respeito, que eu passo-me dos carretos ainda mais do que o Pedro Soá do BB2020!
Por momentos, um silêncio estranho ficou a pairar entre os dois amigos... Um pouco a medo, Afonso parecia tentar encontrar algo de positivo que pudesse dizer. Finalmente Afonso quebrou o silêncio e disse:
- Mas olha que o Luís de Matos nunca disse que a ideia era original...
Serafim voltou a interromper o amigo e respondeu-lhe:
- Pois nunca disse... Porque não poderia dizer... Mas deixa que essa ideia se implante na cabeça das pessoas.... Por exemplo... Quando o Peter Wardell (acerca do espectáculo “Luís de Matos ZOOM”) comenta “Ahead of the curve (again!) – beautifully done.” (sic), o Luís de Matos responde-lhe “Thank you my friend, you are very kind... hope you all are well...” (sic)  Achas que isto é ter respeito pelo colega de profissão Helder Guimarães?
Afonso foi incapaz de responder ao amigo. Há coisas que deixam qualquer um sem argumentação.  Passados alguns instantes,  Serafim continuou:
- E sabes uma coisa, Afonso? Aquele post do Luís de Matos é mesmo intragável... para não dizer coisa pior, pois estamos num local público. É mesmo desfaçatez vir referir que convidou o Helder Guimarães para um dos seus programas de televisão. Até parece querer implantar, subliminarmente, a ideia de que ajudou o Helder Guimarães na sólida carreira que vem construindo. Mas, na minha perspectiva, a realidade é bem diferente.... Ele convidou o Helder Guimarães em 1996 para o programa ILUSÕES COM LUÍS DE MATOS, mas não o convidou, em 2001, para o programa LUÍS DE MATOS AO VIVO, quando é fácil verificar que houve inúmeros mágicos que foram repetidamente convidados em diferentes séries de televisão do Luís de Matos. Porque seria, Afonso?
Afonso manteve-se em silêncio, abanando a cabeça para demonstrar a sua ignorância quanto à resposta solicitada. Serafim tomou fôlego e disse, com ar “sherlockiano”:
- Elementar, meu caro Afonso!... É que, em 1996, o Helder Guimarães tinha 13/14 anitos e não passava de um miúdo com jeitinho e que era giro levar ao programa e, em 2001, o Helder Guimarães tinha 18/19 anos e era um potencial concorrente em formação, tendo já, por exemplo obtido um prémio, em Cartomagia, em Málaga, no Congreso Mágico Espanhol de 1998. Aliás, o Luís de Matos, numa estratégia perfeitamente perceptível de “em terra de cegos quem tem um olho é rei” nunca “puxou” pela valorização dos mágicos portugueses.... “Puxou” sim pela valorização da magia como Arte com a vinda de inúmeros bons mágicos estrangeiros, ajudando a implantar a ideia de que ele, Luís de Matos, era o “oásis no deserto” da magia em Portugal. Claro que isto que agora te disse é o pensamento de muitos e muitos mágicos portugueses, mas por conveniência, medo ou mero “lambe-botismo” a maioria nunca será capaz de o assumir.
Afonso ficou silencioso, absorvendo as palavras do amigo e, após alguns segundos, atirou:
- Agora que falas dessa maneira lembro-me de uma vez  ele ter dito qualquer coisa do género: “em Portugal não há mágicos que façam este tipo de magia...”
Serafim interrompeu o amigo e disse:
- Sei muito bem a que te referes... Sabes, uma coisa?
E, sem esperar resposta do amigo, Serafim continuou:
- O Luís de Matos sempre teve “boa imprensa” em Portugal. Nunca lhe fazem perguntas difíceis... Mas, se não estou enganado, creio que foi no LISBOA MÁGICA 2006, uma jornalista fez-lhe uma pergunta difícil, a saber, “porque é que não havia mágicos portugueses no cartaz”... Acho que ele foi apanhado um pouco de surpresa, mas lá se desenrascou, afirmando que, em Portugal havia bons mágicos, mas que naquele tipo específico de magia (street magic / magia de rua) não havia especialistas... E ele até desejava que o festival servisse para fazer despertar praticantes para tal modalidade. Foi, naturalmente, uma resposta inteligente, mas a jornalista não tinha todo o “trabalho de casa” bem feito, pois, caso contrário, poderia confrontá-lo com os nomes de diversos mágicos estrangeiros (sem dúvida, excelentes) que ele já havia convidado para trabalharem em magia de rua e que não eram especialistas em tal modalidade. No ano seguinte (2007) ele convidou o Helder Guimarães para trabalhar no LISBOA MÁGICA, não por ser um especialista em tal modalidade, mas por ser CAMPEÃO DO MUNDO DE CARTOMAGIA (FISM 2006), logo um nome que não poderia ignorar...
Serafim, olhou para o relógio, soltou uma interjeição irreproduzível e disse:
- Afonso, tenho mesmo que ir... Para terminar só te digo uma coisa... Se tivesse conta no Facebook iria comentar o post do Luís de Matos com a seguinte frase: “CANTAS BEM, MAS NÃO ME ENCANTAS!”
[...]
Serafim afastou-se. Levei a chávena do cimbalino à boca... Estava frio e amargo... Há coisas que não consigo engolir... O café frio e amargo e certos posts no Facebook.


segunda-feira, maio 25, 2020

BACALHAU À LUÍS DE MATOS


Devo começar por dizer que já não encontrava estes dois amigos há algum tempo. O que não é para estranhar, pois o confinamento tem mantido todas as pessoas conscientes afastadas dos locais de convívio habitual.
Hoje, quando tomava o meu cimbalino na esplanada do Café Bom Dia, os timbres inconfundíveis das suas vozes captaram a minha atenção: em amena cavaqueira ali estavam eles, o Serafim e o Afonso.
E logo reparei que eles são zelosos cumpridores das regras de distanciamento social, pois ambos usavam máscara e ocupavam mesas distintas da esplanada. Dados estes condicionalismos a conversa decorria num tom de voz um pouco mais elevado, o que me permitiu perceber de imediato o teor da mesma. Decidi não os interromper. Haveria tempo de sobra para os ir cumprimentar... à distancia, claro!
[...]
- Pois, meu caro Afonso, eu sempre te disse que nunca achei que o Luís de Matos fosse muito criativo... – afirmou Serafim, pausadamente, como quem escolhe as melhores palavras para transmitir a ideia que lhe vai na mente – É um bom comunicador... Direi mesmo, um excelente comunicador, mas não tem, nem de perto nem de longe, a criatividade que lhe atribuem.
- Calma aí, Serafim – interrompeu Afonso – E então aquela fabulosa rotina do lencinho que muda de cor?
Serafim fez um breve pausa e respondeu:
- Claro que isso é criatividade, mas CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”... Ou será que tu não te lembras da rotina do Pepe Carroll?
- Ok...ok...ok... – atalhou, de imediato Afonso – Mas não me vais dizer que aquela forma estética de apresentação da “Tripla Fantasia” de costas para o público com as mãos e cartas sobre a cabeça não é um verdadeiro hino à criatividade artística... Olha que até se diz por aí nos “mentideros da magia” que o Luís de Matos esteve quase a meter uma acção em tribunal contra um mágico que apresentou aquela rotina com aquela estética...
- Está bem, Afonso, não te chateies... – respondeu Serafim – Quanto ao que se diz nos “mentideros” nada sei... Nem quero saber... Palpita-me que nesses tais “mentideros” que referes pode haver muitas manifestações de “lambe-botismo” que nada me interessam... Mas posso dizer-te que antes do Luís de Matos apresentar a “Tripla Fantasia” com aquela estética, já Juan Gabriel [Nota explicativa: mágico espanhol já falecido] o fazia. Portanto, mesmo considerando que o Juan Gabriel foi (pelo menos durante algum tempo) amigo do Luís de Matos e que, eventualmente, o tenha autorizado a usar tal estética de apresentação, só consigo encontrar aqui, mais uma vez, CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”...
Durante alguns instantes, Afonso ficou em silêncio. Parecia que o seu amigo Serafim encontrava sempre argumentos para o contrariar. Mas, intimamente, tinha que lhe dar razão pois os argumentos eram claros e inequívocos. Mas Afonso não gostava de deixar o seu amigo com a última palavra. E, de repente, lembrou-se de algo inovador que vira na página Facebook do Luís de Matos. Sem mais delongas, Afonso atirou:
- Meu caro Serafim, nesta é que não vais poder contrariar-me... Nestes tempos em que não há espectáculos, o Luís de Matos criou um conceito novo...
Sem deixar o seu amigo terminar, Serafim atalhou:
- Já sei.. Estás a falar do Luís de Matos Drive-In...
- Não... Não é isso. – ripostou Afonso – No caso do Drive-In, eu próprio acho que não houve grande criatividade. No fundo foi transformar um “cinema” num “teatro”... Acho que ninguém achará isso extremamente criativo... Estava a referir-me ao conceito do “Luís de Matos ZOOM” que ele divulgou no passado dia 21 de Maio...
Serafim não se conteve e interrompeu o seu amigo com uma sonora gargalhada:
- Ahahahahahahahahahahahahahahahahahahah....
Dois casais que estavam na esplanada não conseguiriam evitar um torcer de pescoço para olharem na direcção de quem se ria daquela forma tão genuína. A custo Serafim conteve a vontade de continuar a rir-se e, virando-se para Afonso, disse:
- Meu caro Afonso, tu deves mesmo andar na Lua... Ou então a tua cegueira em considerares o Luís de Matos o supra-sumo da magia portuguesa leva-te a não enxergares o que está mesmo à frente dos teus olhos... O Luís de Matos limitou-se a copiar (e, sublinho, COPIAR, para que tu, Afonso, fixes bem a ideia...) o conceito do novo espectáculo do Helder Guimarães, The Present, que está fazer sucesso nos Estados Unidos, o qual foi anunciado publicamente no dia 22 de Abril... Por isso, Afonso, não me venhas com mais tretas de criatividade dessa... Isso é o que eu designo por criatividade à moda do Luís de Matos, ou seja, CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”.
Um longo silêncio seguiu-se a esta conclusão.
[...]
Aproveitei para me levantar, pois eram horas de regressar a casa. Passei perto das mesas onde estavam Serafim e Afonso, aproveitando para os cumprimentar à distância regulamentar. Depois de uma breve conversa de circunstância dirigi-me a casa onde me esperava um Bacalhau à Luís de Matos... Já sei... Querem que vos diga a receita... É muito simples... É Bacalhau à Gomes de Sá feito com CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”.