Hoje fui, de novo, tomar o meu cimbalino ao Café Bom Dia. Até porque estava mesmo um bom dia e há que aproveitar em pleno o desconfinamento possível.
Quando lá cheguei, apenas uma mesa da esplanada estava ocupada.... Lendo atentamente o seu JN, lá estava o Afonso. Desta vez sem a companhia do Serafim. Ao passar perto (a mais de 2 metros, seguramente) da sua mesa, cumprimentei-o e trocamos algumas breves palavras de circunstância. Pareceu-me que Afonso queria conversa, mas não comigo. Normalíssimo. Ele gosta mesmo é de falar com o “seu” Serafim.
Sentei-me numa mesa um pouco afastada e pedi o meu cimbalino. No momento em que este foi colocado à minha frente e me preparava para o adoçar, sou “despertado” por um chamamento bem audível.
[...]
- Ó Serafim... Serafim... – bradava Afonso, dirigindo-se ao amigo que ia a atravessar o Jardim da Praça Velásquez (perdão, Francisco Sá Carneiro) – Anda cá tomar um cafezinho, que hoje pago eu!
Serafim olhou na direcção da voz que o chamava, identificou o amigo Afonso e respondeu:
- Não posso. Tenho que ir ali ao Pingo Doce comprar o que a minha mulher me encomendou.
Afonso insistiu:
- Será um café rápido... Anda cá... Até porque temos uma conversinha a pôr em dia.
Serafim não se fez rogado. Procurou a travessia de peões mais próxima para poder atravessar em segurança a faixa de rodagem e, passados breves instantes, estava a sentar-se na mesa ao lado da do amigo.
- Vais ter que ser uma conversa rápida, Afonso. – afirmou Serafim – A minha mulher pediu-me para ir comprar bacalhau e, tu sabes, com aquela inovadora receita de Bacalhau à Luís de Matos que, há dias, apareceu na net, o bacalhau é capaz de ter muita procura... e esgotar!
Afonso anuiu com um sorriso e disse:
- Ora é precisamente do Luís de Matos que te queria falar. Tu viste aquele post bem simpático que ele colocou na sua página do Facebook a felicitar o Helder Guimarães por ter sido capa do LA Times Calendar com o espectáculo The Present... É bonito de se ver esta demonstração de respeito por...
Serafim não deixou o amigo continuar, interrompendo-o da seguinte maneira:
- Ó Afonso tu deves estar a gozar com a minha cara!... Só pode!... Tal como o Luís de Matos, ao fazer esse post, deve estar a gozar com a cara do Helder Guimarães e de todos aqueles que sabem a falta de respeito (sim, Afonso, repito: FALTA DE RESPEITO...) que o Luís de Matos teve para com o Helder Guimarães ao COPIAR o conceito do espectáculo “The Present” e lançar o seu super-criativo “Luís de Matos ZOOM”... Respeito teria sido abordar previamente o Helder Guimarães e tentar encontrar um consenso que lhe permitisse fazer tal espectáculo dando o correspondente crédito ao Helder Guimarães.... Portanto, Afonso, não me venhas falar de respeito, que eu passo-me dos carretos ainda mais do que o Pedro Soá do BB2020!
Por momentos, um silêncio estranho ficou a pairar entre os dois amigos... Um pouco a medo, Afonso parecia tentar encontrar algo de positivo que pudesse dizer. Finalmente Afonso quebrou o silêncio e disse:
- Mas olha que o Luís de Matos nunca disse que a ideia era original...
Serafim voltou a interromper o amigo e respondeu-lhe:
- Pois nunca disse... Porque não poderia dizer... Mas deixa que essa ideia se implante na cabeça das pessoas.... Por exemplo... Quando o Peter Wardell (acerca do espectáculo “Luís de Matos ZOOM”) comenta
“Ahead of the curve (again!) – beautifully done.” (sic), o Luís de Matos responde-lhe
“Thank you my friend, you are very kind... hope you all are well...” (sic) Achas que isto é ter respeito pelo colega de profissão Helder Guimarães?
Afonso foi incapaz de responder ao amigo. Há coisas que deixam qualquer um sem argumentação. Passados alguns instantes, Serafim continuou:
- E sabes uma coisa, Afonso? Aquele post do Luís de Matos é mesmo intragável... para não dizer coisa pior, pois estamos num local público. É mesmo desfaçatez vir referir que convidou o Helder Guimarães para um dos seus programas de televisão. Até parece querer implantar, subliminarmente, a ideia de que ajudou o Helder Guimarães na sólida carreira que vem construindo. Mas, na minha perspectiva, a realidade é bem diferente.... Ele convidou o Helder Guimarães em 1996 para o programa ILUSÕES COM LUÍS DE MATOS, mas não o convidou, em 2001, para o programa LUÍS DE MATOS AO VIVO, quando é fácil verificar que houve inúmeros mágicos que foram repetidamente convidados em diferentes séries de televisão do Luís de Matos. Porque seria, Afonso?
Afonso manteve-se em silêncio, abanando a cabeça para demonstrar a sua ignorância quanto à resposta solicitada. Serafim tomou fôlego e disse, com ar “sherlockiano”:
- Elementar, meu caro Afonso!... É que, em 1996, o Helder Guimarães tinha 13/14 anitos e não passava de um miúdo com jeitinho e que era giro levar ao programa e, em 2001, o Helder Guimarães tinha 18/19 anos e era um potencial concorrente em formação, tendo já, por exemplo obtido um prémio, em Cartomagia, em Málaga, no Congreso Mágico Espanhol de 1998. Aliás, o Luís de Matos, numa estratégia perfeitamente perceptível de “em terra de cegos quem tem um olho é rei” nunca “puxou” pela valorização dos mágicos portugueses.... “Puxou” sim pela valorização da magia como Arte com a vinda de inúmeros bons mágicos estrangeiros, ajudando a implantar a ideia de que ele, Luís de Matos, era o “oásis no deserto” da magia em Portugal. Claro que isto que agora te disse é o pensamento de muitos e muitos mágicos portugueses, mas por conveniência, medo ou mero “lambe-botismo” a maioria nunca será capaz de o assumir.
Afonso ficou silencioso, absorvendo as palavras do amigo e, após alguns segundos, atirou:
- Agora que falas dessa maneira lembro-me de uma vez ele ter dito qualquer coisa do género: “em Portugal não há mágicos que façam este tipo de magia...”
Serafim interrompeu o amigo e disse:
- Sei muito bem a que te referes... Sabes, uma coisa?
E, sem esperar resposta do amigo, Serafim continuou:
- O Luís de Matos sempre teve “boa imprensa” em Portugal. Nunca lhe fazem perguntas difíceis... Mas, se não estou enganado, creio que foi no LISBOA MÁGICA 2006, uma jornalista fez-lhe uma pergunta difícil, a saber, “porque é que não havia mágicos portugueses no cartaz”... Acho que ele foi apanhado um pouco de surpresa, mas lá se desenrascou, afirmando que, em Portugal havia bons mágicos, mas que naquele tipo específico de magia (street magic / magia de rua) não havia especialistas... E ele até desejava que o festival servisse para fazer despertar praticantes para tal modalidade. Foi, naturalmente, uma resposta inteligente, mas a jornalista não tinha todo o “trabalho de casa” bem feito, pois, caso contrário, poderia confrontá-lo com os nomes de diversos mágicos estrangeiros (sem dúvida, excelentes) que ele já havia convidado para trabalharem em magia de rua e que não eram especialistas em tal modalidade. No ano seguinte (2007) ele convidou o Helder Guimarães para trabalhar no LISBOA MÁGICA, não por ser um especialista em tal modalidade, mas por ser CAMPEÃO DO MUNDO DE CARTOMAGIA (FISM 2006), logo um nome que não poderia ignorar...
Serafim, olhou para o relógio, soltou uma interjeição irreproduzível e disse:
- Afonso, tenho mesmo que ir... Para terminar só te digo uma coisa... Se tivesse conta no Facebook iria comentar o post do Luís de Matos com a seguinte frase:
“CANTAS BEM, MAS NÃO ME ENCANTAS!”
[...]
Serafim afastou-se. Levei a chávena do cimbalino à boca... Estava frio e amargo... Há coisas que não consigo engolir... O café frio e amargo e certos posts no Facebook.