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segunda-feira, maio 25, 2020

BACALHAU À LUÍS DE MATOS


Devo começar por dizer que já não encontrava estes dois amigos há algum tempo. O que não é para estranhar, pois o confinamento tem mantido todas as pessoas conscientes afastadas dos locais de convívio habitual.
Hoje, quando tomava o meu cimbalino na esplanada do Café Bom Dia, os timbres inconfundíveis das suas vozes captaram a minha atenção: em amena cavaqueira ali estavam eles, o Serafim e o Afonso.
E logo reparei que eles são zelosos cumpridores das regras de distanciamento social, pois ambos usavam máscara e ocupavam mesas distintas da esplanada. Dados estes condicionalismos a conversa decorria num tom de voz um pouco mais elevado, o que me permitiu perceber de imediato o teor da mesma. Decidi não os interromper. Haveria tempo de sobra para os ir cumprimentar... à distancia, claro!
[...]
- Pois, meu caro Afonso, eu sempre te disse que nunca achei que o Luís de Matos fosse muito criativo... – afirmou Serafim, pausadamente, como quem escolhe as melhores palavras para transmitir a ideia que lhe vai na mente – É um bom comunicador... Direi mesmo, um excelente comunicador, mas não tem, nem de perto nem de longe, a criatividade que lhe atribuem.
- Calma aí, Serafim – interrompeu Afonso – E então aquela fabulosa rotina do lencinho que muda de cor?
Serafim fez um breve pausa e respondeu:
- Claro que isso é criatividade, mas CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”... Ou será que tu não te lembras da rotina do Pepe Carroll?
- Ok...ok...ok... – atalhou, de imediato Afonso – Mas não me vais dizer que aquela forma estética de apresentação da “Tripla Fantasia” de costas para o público com as mãos e cartas sobre a cabeça não é um verdadeiro hino à criatividade artística... Olha que até se diz por aí nos “mentideros da magia” que o Luís de Matos esteve quase a meter uma acção em tribunal contra um mágico que apresentou aquela rotina com aquela estética...
- Está bem, Afonso, não te chateies... – respondeu Serafim – Quanto ao que se diz nos “mentideros” nada sei... Nem quero saber... Palpita-me que nesses tais “mentideros” que referes pode haver muitas manifestações de “lambe-botismo” que nada me interessam... Mas posso dizer-te que antes do Luís de Matos apresentar a “Tripla Fantasia” com aquela estética, já Juan Gabriel [Nota explicativa: mágico espanhol já falecido] o fazia. Portanto, mesmo considerando que o Juan Gabriel foi (pelo menos durante algum tempo) amigo do Luís de Matos e que, eventualmente, o tenha autorizado a usar tal estética de apresentação, só consigo encontrar aqui, mais uma vez, CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”...
Durante alguns instantes, Afonso ficou em silêncio. Parecia que o seu amigo Serafim encontrava sempre argumentos para o contrariar. Mas, intimamente, tinha que lhe dar razão pois os argumentos eram claros e inequívocos. Mas Afonso não gostava de deixar o seu amigo com a última palavra. E, de repente, lembrou-se de algo inovador que vira na página Facebook do Luís de Matos. Sem mais delongas, Afonso atirou:
- Meu caro Serafim, nesta é que não vais poder contrariar-me... Nestes tempos em que não há espectáculos, o Luís de Matos criou um conceito novo...
Sem deixar o seu amigo terminar, Serafim atalhou:
- Já sei.. Estás a falar do Luís de Matos Drive-In...
- Não... Não é isso. – ripostou Afonso – No caso do Drive-In, eu próprio acho que não houve grande criatividade. No fundo foi transformar um “cinema” num “teatro”... Acho que ninguém achará isso extremamente criativo... Estava a referir-me ao conceito do “Luís de Matos ZOOM” que ele divulgou no passado dia 21 de Maio...
Serafim não se conteve e interrompeu o seu amigo com uma sonora gargalhada:
- Ahahahahahahahahahahahahahahahahahahah....
Dois casais que estavam na esplanada não conseguiriam evitar um torcer de pescoço para olharem na direcção de quem se ria daquela forma tão genuína. A custo Serafim conteve a vontade de continuar a rir-se e, virando-se para Afonso, disse:
- Meu caro Afonso, tu deves mesmo andar na Lua... Ou então a tua cegueira em considerares o Luís de Matos o supra-sumo da magia portuguesa leva-te a não enxergares o que está mesmo à frente dos teus olhos... O Luís de Matos limitou-se a copiar (e, sublinho, COPIAR, para que tu, Afonso, fixes bem a ideia...) o conceito do novo espectáculo do Helder Guimarães, The Present, que está fazer sucesso nos Estados Unidos, o qual foi anunciado publicamente no dia 22 de Abril... Por isso, Afonso, não me venhas com mais tretas de criatividade dessa... Isso é o que eu designo por criatividade à moda do Luís de Matos, ou seja, CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”.
Um longo silêncio seguiu-se a esta conclusão.
[...]
Aproveitei para me levantar, pois eram horas de regressar a casa. Passei perto das mesas onde estavam Serafim e Afonso, aproveitando para os cumprimentar à distância regulamentar. Depois de uma breve conversa de circunstância dirigi-me a casa onde me esperava um Bacalhau à Luís de Matos... Já sei... Querem que vos diga a receita... É muito simples... É Bacalhau à Gomes de Sá feito com CRIATIVIDADE “DÉJÀ VU”.