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segunda-feira, junho 29, 2020

O POEMA


Na entrada anterior deste blogue fiz referência a um poema rabiscado num guardanapo de papel que encontrei abandonado numa das mesas da esplanada do Café Bom Dia.  Tal como referi, o respectivo título captou a minha atenção e, por isso, o guardei para leitura atenta posterior. Para satisfação da curiosidade dos meus leitores, aqui deixo a transcrição de tal poema.

CONFISSÃO DE UM... COBARDE

Esta minha confissão
Qu’ aqui deixo com alarde
Não tem direito a perdão,
Pois sou um triste cobarde!

A coisa par’cia preta
Pois p’ra rimar com magia,
Como poeta da treta,
Eu só encontrei... bom dia.

Assim nasceu, pois, o título
Duma crónica foleira,
Que mostrou ser um capítulo
Ond’ escrevi muit’ asneira.

Não foi, porém, minha culpa,
Nem sequer foi “overdose”.
Acreditei, “mea culpa”,
No que diss’ o Meia Dose.

Fiz, pois, papel de palhaço,
A verdade é nua e crua,
Quis fazer estardalhaço,
Agora nem saio à rua.

Mais valia estar calado
Do que armar-me em Rui Pinto,
Pois fiquei bem entalado
E só me chamam... Rui Minto!

                    Autor: Cobarde anónimo 

segunda-feira, junho 22, 2020

E O JN JÁ ESTAVA ESGOTADO!...


Hoje, fui, mais uma vez, tomar o meu cimbalino matinal ao Café Bom Dia. Antes de me sentar numa mesa da esplanada que, estranhamente, estava totalmente vazia, passei pelo quiosque para adquirir o habitual JN. E qual não foi o meu espanto ao verificar que o JN já estava esgotado!

Não havia nada a fazer. Tomei o meu café descansadamente, desejando, secretamente, que os meus amigos Serafim e Afonso aparecessem, como era habitual. Já que não havia JN para ler, sempre haveria uma conversa entre Serafim e Afonso para escutar... E como essas conversas são interessantes!...

Mas, definitivamente, hoje não era o meu dia da sorte: Serafim e Afonso tardavam em aparecer. Decidi, então, levantar-me e ir pagar a despesa ao balcão, pois o empregado de mesa parecia ter-se eclipsado. Nesta viagem entre mesas vazias da esplanada, reparei num poema rabiscado num guardanapo de papel que estava abandonado numa delas. Peguei, maquinalmente, no guardanapo, dei-lhe uma olhadela e, como o título do poema era muito sugestivo, dobrei o guardanapo e meti-o no bolso, para uma leitura posterior mais atenta.

Após a despesa paga, saí do Café Bom Dia e rumei ao quiosque do Café Velasquez em busca do JN. Ao passar pela respectiva esplanada deparei, com espanto, que ali estavam, em amena cavaqueira, o Serafim e o Afonso. Dirigi-me a eles, não só para os cumprimentar, mas também para satisfazer a minha curiosidade quanto às razões da mudança de “poiso habitual”.

Afonso não se fez rogado e elucidou-me:

- É verdade, Jomaguy, decidimos mudar de ares... O ar do Bom Dia andava a ficar um bocado poluído... A presença duma certa “geração youtube” que se dá com (e aprova comportamentos de) vigaristas, oportunistas, lambe-botas e quejandos estava a tornar o ar do Bom Dia “irrespirável”. Estamos muito melhor aqui... Pelo menos, por enquanto...

Agradeci o esclarecimento e, após mais algumas palavras de circunstância, despedi-me e entrei no Café Velásquez para me dirigir ao respectivo quiosque. Comprei o JN e saí, passando perto de Serafim e Afonso, que, inevitavelmente, tinham retomado a sua amena cavaqueira. Apenas pude perceber uma frase solta de qualquer contexto, dita por Serafim:

- Pois é como te digo, Afonso, esses meninos não passam do que eu designo por “desperdícios dos espermatozóides paternos”...

No caminho até casa, fui pensando na frase ouvida e no quanto ela tem de verdade em casos que eu conheço de ginjeira. Chegado a casa, calcei as pantufas, sentei-me e embrenhei-me na leitura do JN.
 
Quanto estava quase a terminar a leitura do JN, uma ideia invadiu a minha mente.... O poema... Ainda não tinha lido o poema... Meti a mão ao bolso em busca do guardanapo rabiscado... Nessa altura, a minha mulher chamou-me para ir almoçar... Mais tarde, teria tempo para o poema... O “Bacalhau à Luís de Matos” é que não podia esperar!

P.S.: Portanto, os leitores desta crónica vão ter que esperar uns diazitos antes de lerem o poema... Convém manter os leitores em “suspense”...

sexta-feira, maio 29, 2020

O TRILEMA...


Hoje, rumei cedo ao Café Bom Dia para o meu cimbalino matinal da praxe. Tão cedo que nem sequer o Afonso lá estava. Mas, passados 10 minutos, lá chegou ele, caminhando pausadamente com o seu JN debaixo do braço. Cumprimentou-me com um aceno de cabeça e sentou-se a 3 mesas de distancia.
Continuei a tomar, calmamente, o meu cimbalino, enquanto lia algumas das últimas graçolas que certos primatas de coluna vertebral bastante curva por lá escrevem... E o que eu me rio interiormente com tanto dislate que leio!...

Até encontrei um grupo de Facebook, em que um membro pedia ao administrador do grupo para eliminar um post que outro membro colocara!...  Pensar que, 46 anos após o 25 de Abril, há gente a solicitar o “lápis azul” deixa-me arrepiado... e MUITO TRISTE!

De repente, um timbre de voz que bem conheço, fez-me voltar ao PRESENTE, em que a DEMOCRACIA existe para bem de todos... Mesmo daqueles que gostariam de acabar com ela! O Serafim chegara e estava a sentar-se na mesa contígua à do Afonso.

[...]

- Bons olhos te vejam, Serafim – saudou Afonso – Estava a ver que já não aparecias hoje.

- Tu parece que não me conheces – respondeu Serafim – Eu adoro estes nossos encontros e só faltaria por um motivo de força maior, o que não é o caso.

Após um breve pausa para saborear o primeiro gole do café, que o empregado entretanto trouxera a pedido de Afonso, Serafim continuou:

- Desculpa lá o atraso, Afonso... Mas hoje, de manhã, vi uma notícia na CMTV sobre uma situação protagonizada por um cozinheiro, ao qual a jornalista apelidou de vigarista. E, com a história que foi contada, o termo vigarista pareceu-me pouco adequado... Por isso estive embrenhado a pesquisar em vários dicionários de língua portuguesa...

Afonso interrompeu o seu amigo, dizendo:

- Desculpa lá, Serafim, estou a leste desse assunto... Não queres fazer um resumo do caso, para eu conseguir acompanhar-te?

Serafim não se fez rogado e adiantou:

- O caso descreve-se em meia dúzia de palavras.... Um cozinheiro de renome internacional de nome Simon criou uma receita de bacalhau inovadora... Não, Afonso, não olhes para mim com essa cara pois não foi o Bacalhau à Luís de Matos... Chamou-lhe Bacalhau à Simon e partilhou, gratuitamente, a respectiva receita para download na respectiva página Web...

- Foi simpático e altruísta, esse tal Simon – comentou Afonso.

Serafim continuou:

- Tens toda a razão, Afonso... Mas apareceu um cozinheiro português, de nome Alexandre, que achou que podia ganhar um dinheirito com essa receita e tratou de imprimir tal receita e vendê-la a 15 dólares...

- Ahhhhhhhh – exclamou Afonso – Então foi esse cozinheiro Alexandre que a jornalista chamou vigarista, deduzo eu.

- Exactamente – confirmou Serafim – E eu acho que seria mais lógico chamar-lhe oportunista...

- Ou “chico-esperto” – alvitrou Afonso.

- Sim, claro – anuiu, de imediato, Serafim – De qualquer maneira estaremos de acordo que quem assim procede não é muito recomendável... Certo, Afonso?

- Totalmente de acordo, meu caro Serafim! – respondeu Afonso, sem hesitação.

Afonso respirou fundo e olhou para o céu, como que agradecendo a qualquer divindade celeste o facto de, finalmente, haver um assunto em que estava totalmente de acordo com o seu amigo Serafim. Este esboçava um sorriso que parecia querer transmitir algo mais ao seu amigo. Sem reparar em tal sorriso, Afonso não pode deixar de verbalizar os seus pensamentos:

- Sabes, Serafim... Fico contente por hoje termos encontrado um assunto em que estamos totalmente de acordo...

- Claro que estamos – interrompeu Serafim – E sabes porquê, Afonso?... Porque não estamos a falar de ilusionismo!

Afonso ficou estupefacto e respondeu:

- É mesmo... Nem tinha reparado nisso... E nós que só costumamos falar de temas de magia...

Com um ar enigmático, Serafim contrapôs:

- Se calhar até estivemos...

Seguiu-se um silêncio, durante o qual Afonso tentava dar sentido àquela frase enigmática do amigo, o qual se mantinha impávido e sereno, aguardando a inevitável pergunta de Afonso. Por fim este não se conteve e disparou:

- Agora vais explicar-me essa treta bem explicadinha, pois não estou a entender nada de nada...

Sem fazer esperar o amigo, Serafim respondeu:

- Ok, Afonso, vou esclarecer-te porque não quero que fiques na ignorância... O que acabo de te contar é uma metáfora e não mais do que isso... Tive medo que, se te falasse no caso real, com os verdadeiros protagonistas do meio mágico, tu começasses a dar desculpas esfarrapadas para os comportamentos pouco éticos, como já tens feito...

Afonso balbuciou, entre dentes:

- Não é bem isso... É que...

Serafim interrompeu-o e continuou:

- Ok... ok... Eu sei que, às vezes, só o fazes para me contrariares e me fazeres falar mais do que eu próprio quereria... Mas, voltando à vaca fria... A história verdadeira é a que te vou contar... No ano 2004 o Simon Aronson tinha, no seu website, para descarga gratuita, um PDF com o título “Memories Are Made of This – an Introduction to Memorized Deck Magic” e o Alexandre Figueiras colocou à venda no seu website "The Wonder Shop" esse mesmo livrinho... Ou seja, fez a descarga gratuita e imprimia o livrinho para vender por 15 dólares...

- É pá!... – exclamou Afonso – Isso é que é mesmo “chico-espertice”... Ou será oportunismo?... Se calhar é mesmo vigarice...

- De certeza que é uma tremenda falta de ética e de princípios – afirmou Serafim.

- Sem dúvida – anuiu Afonso pensativo.

Serafim, pareceu adivinhar o pensamento do amigo e comentou:

- Afonso, eu até sei o que estás a pensar...

Perante o olhar interrogativo de Afonso, Serafim continuou:

- Estás a pensar: "O Luís de Matos deve estar muito contente ao verificar que é gente deste jaez que sai a terreiro para "tomar as suas dores"...

Afonso permaneceu em silêncio e, de repente, como se uma súbita ideia lhe tivesse ocupado a mente, disparou:

- Pensando bem, tenho ideia que, na época, esse assunto foi denunciado pelo Jomaguy no fórum ILUSORIUM... Será para não ser reconhecido por esse comportamento que o Alexandre Figueiras mudou de “nome” para Alex D’Arcy?

Serafim ficou em silêncio. Há perguntas pertinentes que deixam qualquer um sem palavras.

[...]

Estava na hora de regressar a casa. Sem dúvida tinha que consultar o dicionário para esclarecer se existe a palavra “trilema”... É que eu estou perante o seguinte “trilema”: OPORTUNISTA, VIGARISTA ou “CHICO-ESPERTO”?