No passado dia 10, ao ler o JN, deparei com a reportagem que, seguidamente, reproduzo.
A frase forte “Siegfried & Joy são Nico Donner e Joy Leslie, uma dupla alemã em ascensão meteórica no mundo da magia” levou-me, de imediato, a pesquisar se ainda haveria bilhetes disponíveis para o espectáculo programado para essa mesma noite no Coliseu do Porto. Alguns cliques e 34,36 euros depois, tinha dois bilhetes no “bolso virtual” e uma grande expectativa para ver uma dupla com uma ascensão tão meteórica que, há apenas 4 meses, deveriam ser uns perfeitos desconhecidos pois não tinham sido referenciados, em Turim, no Congresso Mundial da FISM!
Ao entrar no Coliseu e verificar que, paulatinamente, a sala se enchia, reforcei a crença que iria passar uma boa noite de magia e humor. Quando o espectáculo começou, o Coliseu estava praticamente lotado, embora deva referir que a zona das galerias não tinha sido disponibilizada para venda. Mesmo assim, plateia, tribuna e camarotes constituíam, por si só, uma excelente moldura humana.
As primeiras reacções da maioria do público à presença dos “artistas” com aplausos e gritos (à boa maneira de uma recepção condigna a uma bem-sucedida banda de rock) levaram-me a perguntar a mim mesmo onde é que eu tinha estado fechado para ter uma tão manifesta ignorância sobre a dupla Siegfried & Joy.
No entanto, à medida que o espectáculo se desenrolava e a respectiva falta de qualidade mágica e humorística desfilava à minha frente, a única pergunta que me invadia o espírito era:
- Como é possível que uma tão evidente mediocridade artística convença tanta gente a sair de casa numa noite de segunda-feira para ver “aquilo”?
Não tenho dúvidas que já vi espectáculos muito melhores realizados por amadores em meras colectividades de bairro…
Mas um facto indesmentível é que a grande maioria do público mostrava agrado pelo que estava a presenciar… E os restantes (no grupo dos quais me incluía) se abstinham de qualquer manifestação!
Senti que estava perante um mistério… Mas os mistérios sempre me fascinaram e, por isso, teria que o solucionar.
E, de regresso a casa (após um dos piores espectáculos de magia que alguma vez presenciei), foi fácil e imediato encontrar a explicação para o “êxito” dos artistas e o “sucesso de bilheteira” do espectáculo… Fui reler com mais atenção a reportagem acima referida e lá estava, escarrapachado com todas as letras, “Siegfried & Joy são Nico Donner e Joy Leslie, uma dupla alemã de influencers em ascensão meteórica nas redes sociais” (sic).
É lógico que alguém que cria, constrói ou protagoniza algo relevante numa área de actividade se venha a tornar, com naturalidade, num influenciador de desenvolvimento nessa área de actividade. No Ilusionismo temos muitos nomes que podem ser citados... Dai Vernon, Slydini, Ascanio, Tamariz, Fred Kaps, Tommy Wonder são nomes de influencers mágicos, os quais, curiosamente, nunca vi referidos como tal.
Infelizmente, vivemos numa época de ouro para o "aparecimento mágico" dos influencers que nada fizeram antes que os possa recomendar para tal posto, mas que uma hábil manipulação das ferramentas das redes sociais os alcandora ao "estrelato da mediocridade".
Para mim persiste a dúvida...
Mediocridade da influência… ou influência da mediocridade?