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quarta-feira, novembro 12, 2025

Mediocridade da influência… ou influência da mediocridade?


No passado dia 10, ao ler o JN, deparei com a reportagem que, seguidamente, reproduzo.

A frase forte “Siegfried & Joy são Nico Donner e Joy Leslie, uma dupla alemã em ascensão meteórica no mundo da magia” levou-me, de imediato, a pesquisar se ainda haveria bilhetes disponíveis para o espectáculo programado para essa mesma noite no Coliseu do Porto. Alguns cliques e 34,36 euros depois, tinha dois bilhetes no “bolso virtual” e uma grande expectativa para ver uma dupla com uma ascensão tão meteórica que, há apenas 4 meses, deveriam ser uns perfeitos desconhecidos pois não tinham sido referenciados, em Turim, no Congresso Mundial da FISM!

Ao entrar no Coliseu e verificar que, paulatinamente, a sala se enchia, reforcei a crença que iria passar uma boa noite de magia e humor. Quando o espectáculo começou, o Coliseu estava praticamente lotado, embora deva referir que a zona das galerias não tinha sido disponibilizada para venda. Mesmo assim, plateia, tribuna e camarotes constituíam, por si só, uma excelente moldura humana.

As primeiras reacções da maioria do público à presença dos “artistas” com aplausos e gritos (à boa maneira de uma recepção condigna a uma bem-sucedida banda de rock) levaram-me a perguntar a mim mesmo onde é que eu tinha estado fechado para ter uma tão manifesta ignorância sobre a dupla Siegfried & Joy.

No entanto, à medida que o espectáculo se desenrolava e a respectiva falta de qualidade mágica e humorística desfilava à minha frente, a única pergunta que me invadia o espírito era:

- Como é possível que uma tão evidente mediocridade artística convença tanta gente a sair de casa numa noite de segunda-feira para ver “aquilo”?

Não tenho dúvidas que já vi espectáculos muito melhores realizados por amadores em meras colectividades de bairro… 

Mas um facto indesmentível é que a grande maioria do público mostrava agrado pelo que estava a presenciar… E os restantes (no grupo dos quais me incluía) se abstinham de qualquer manifestação! 

Senti que estava perante um mistério… Mas os mistérios sempre me fascinaram e, por isso, teria que o solucionar.

E, de regresso a casa (após um dos piores espectáculos de magia que alguma vez presenciei), foi fácil e imediato encontrar a explicação para o “êxito” dos artistas e o “sucesso de bilheteira” do espectáculo… Fui reler com mais atenção a reportagem acima referida e lá estava, escarrapachado com todas as letras, “Sieg­fried & Joy são Nico Don­ner e Joy Les­lie, uma dupla alemã de influ­en­cers em ascen­são mete­ó­rica nas redes soci­ais” (sic).

É lógico que alguém que cria, constrói ou protagoniza algo relevante numa área de actividade se venha a tornar, com naturalidade, num influenciador de desenvolvimento nessa área de actividade. No Ilusionismo temos muitos nomes que podem ser citados... Dai Vernon, Slydini, Ascanio, Tamariz, Fred Kaps, Tommy Wonder são nomes de influencers mágicos, os quais, curiosamente, nunca vi referidos como tal.

Infelizmente, vivemos numa época de ouro para o "aparecimento mágico" dos influencers que nada fizeram antes que os possa recomendar para tal posto, mas que uma hábil manipulação das ferramentas das redes sociais os alcandora ao "estrelato da mediocridade".

Para mim persiste a dúvida...

Mediocridade da influência… ou influência da mediocridade?


segunda-feira, fevereiro 13, 2023

MAGIA DE ALUGUER: UMA NOVA OPORTUNIDADE DE NEGÓCIO


A minha alma está parva!... Acabo de ver, no Facebook um post com o seguinte teor:


Estou convicto que, se FRED KAPS, ARTURO DE ASCANIO ou DAI VERNON ressuscitassem, teriam direito a morte súbita ao ver o teor de tal post.

Se a primeira interrogação até pode parecer apropriada pois conseguimos imaginar a aflição de um mágico que tem no seu repertório o efeito "Master Prediction" e que, em "cima da hora" de um espectáculo importante, se vê confrontado com a avaria (ou desaparição) do material necessário e a urgência da necessidade de o substituir, já a segunda interrogação só pode ser fruto de uma completa falta de noção do que é o Ilusionismo.

Mas não tenho dúvidas que, por este caminho, não tardará muito a florescer um negócio do aluguer de truques à hora, numa qualquer esquina de Lisboa.

P.S.: Reparei agora mesmo que nem sequer a primeira interrogação é minimamente apropriada, pois a expressão "ou similar" parece indiciar que o potencial candidato a alugar não tem qualquer preocupação em estar familiarizado com o funcionamento do equipamento que vai alugar. É TUDO IGUAL AO LITRO!


terça-feira, setembro 13, 2022

25 ANOS SEM ARTURO DE ASCANIO



Em 6 de Abril passado completaram-se 25 anos sobre o falecimento de ARTURO DE ASCANIO. Com o objectivo de homenagear essa figura ímpar da Magia, a GRADA MÁGICA (dos meus amigos ARMANDO GÓMEZ e MIGUEL GÓMEZ), com a valiosa colaboração de PABLO BASTERRECHEA, organizou um evento em Madrid ao qual não podia faltar.



O evento foi constituído por uma muito bem organizada exposição de objectos pessoais que pertenceram a ASCANIO (aparatos mágicos, livros, manuscritos, recordações de congressos, etc.), a qual foi complementada com várias palestras que ajudavam a transmitir a superior importância de ASCANIO na Magia que hoje se pratica. O evento encerrou com uma excelente Gala Mágica, em que actuaram JUAN GISMERO, MIGUEL ANGEL GEA, RAFAEL BENATAR, ANTHONY BLAKE e ARMANDO GÓMEZ (este último no papel de apresentador). Também trabalhou (e muito) MIGUEL GÓMEZ, como assistente de palco.

Na palestra de quinta-feira (única a que assisti) teve um papel fundamental o meu amigo PEDRO LACERDA MACHADO que, como sabemos, era um dos "filhos mágicos" de ASCANIO, conforme este sempre referia.


Ao visitar a exposição foi com alguma emoção que verifiquei que entre os pertences de ASCANIO que aí estavam expostos figurava uma carteira-arquivo de cartões de visita onde estava o meu cartão que eu lhe entregara em 1979, quando veio ao Porto participar (como actuante e palestrante) no 20º aniversário do CIF.

Na altura do falecimento de ARTURO DE ASCANIO escrevi um artigo para publicação na revista MAGIA (CIF), o qual está reproduzido aqui.

POST SCRIPTUM

Em 29 de Outubro de 2022 foi divulgado o seguinte video que resume esta homenagem a Arturo de Ascanio:



sexta-feira, julho 08, 2022

A MAGIA DE ASCANIO SERÁ ETERNA


Reprodução do artigo publicado na revista MAGIA (CIF) de Março/Abril 1997.

A MAGIA DE ASCANIO SERÁ ETERNA

por Jomaguy

O universo do Ilusionismo está mais pobre: faleceu ASCANIO. E a morte surpreendeu-o com um baralho de cartas na mão, no passado dia 6 de Abril, na sua residência em Madrid, quando apresentava algumas das suas jóias cartomágicas a um amigo.

Ascanio era por direito próprio cidadão mágico universal e, naturalmente, o mundo da Magia não pode deixar de chorar a perda de um dos seus membros mais criativos e que muito ajudou a elevar cultural e cientificamente o nível da prática do Ilusionismo. A sua paixão era a cartomagia, mas as teorias que desenvolveu e explanou de forma brilhante são de aplicação tão vasta que o seu nome ficará gravado, a letras de ouro, na História da Magia Universal.

Ascanio tinha um carinho muito especial pelo nosso país, pelos nossos ilusionistas e pelo Porto. Não resisto a transcrever, com a devida vénia, uma passagem da entrevista publicada na revista “O MÁGICO” nº 2 (Março de 1996). Eis as palavras do MESTRE:

«Há momentos mágicos, especiais, momentos de prazer. Uma ocasião, no Porto, numa humilde tasca depois de comer um bacalhau com vinho verde, que gosto muito, estava com um grupo a fazer os nossos “juegos”. O dono, um tasqueiro clássico, pançudo, perguntou a alguém quem eu era e disseram-lhe exagerando claro! à saída, o dono, a família e os empregados formaram alas e à minha passagem aplaudiram; o povo, o verdadeiro povo dava-me a sua homenagem. Foi no Porto. Estava o Coimbra, a Paula, o Pedro... foi precioso esse momento. Foi mágico.»

Ascanio nasceu a 22 de Março de 1929 e seu interesse pelo Ilusionismo começou muito cedo pois aos 11 anos já apresentava sessões de magia para os amigos de seu pai. A sua carreira foi recheada de êxitos de que é justo destacar o 1º Prémio de Cartomagia do Congresso FISM de 1970 (Amsterdam). O seu exemplo e os seus ensinamentos frutificaram através da Escuela Mágica de Madrid e duma vasta obra literária que se encontra traduzida em inglês, francês e alemão, a par das participações e conferências em congressos, onde a sua presença era chamariz irresistível para os apaixonados da cartomagia. Desde muito novo que o seu talento e a sua mestria foram reconhecidas por grandes nomes da Magia. Eis o que David Bamberg (Fu Manchú) escreveu, em 1958, sobre Ascanio, no prólogo dessa pequena maravilha literária (refiro-me a “Navajas e daltonismo”) que o MESTRE nos legou:

«Um manipulador de primeiríssima categoria, um mago de pequenos detalhes e um cavalheiro encantador. Uma dessas “almas raras” que ama a magia e que faz alguma coisa de concreto com os seus conhecimentos. Na minha humilde opinião, Ascanio está no nível mais elevado da magia moderna.»

Ascanio não morreu. Porque só morrem os que nada deixam que nos lembre a sua ausência. E Ascanio deixou-nos um exemplo de amor à MAGIA e um legado de ensinamentos que o manterá vivo, na nossa memória, para sempre. Paz à sua alma.